A integração do negro na sociedade de classes, vol. 1

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A integração do negro na sociedade de classes, vol. 1 ➻ [Download] ➸ A integração do negro na sociedade de classes, vol. 1 By Florestan Fernandes ➺ – Capitalsoftworks.co.uk A integração do negro na sociedade de classes o legado da “raça branca” de Florestan Fernandes é um marco na sociologia brasileira em mais de um sentido De um lado é uma das teses mais famosa A do negro na sociedade PDF or integração do do negro MOBI î negro na sociedade de classes o legado da “raça branca” de Florestan Fernandes é um marco na sociologia brasileira em A integração PDF \ mais de um sentido De um lado é uma das teses mais famosas já apresentadas na USP De outro é a consolidação de integração do negro PDF/EPUB ã nosso maior sociólogo assim como o pleno desenvolvimento de sua sociologia histórica marca da “escola paulista” Por fim representa uma histórica virada crítica na integração do negro na sociedade PDF/EPUB or auto imagem do país virada esta sintetizada na expressão “o mito da democracia racial” título de um dos capítulos A presente reedição é parte das Obras reunidas de Florestan Fernandes coordenação Maria Arminda Nascimento Arruda ue vem mantendo essa obra fundamental acessível ao público em geral e a estudantes e professores em particular.


2 thoughts on “A integração do negro na sociedade de classes, vol. 1

  1. Lucas Lucas says:

    Eu aprendi uma vez ue uando nos dispomos a analisar uma contribuição intelectual do passado há duas possibilidades de reconstrução A reconstrução racional faz uso consciente do anacronismos em outras palavras analisa se o passado tomando os parâmetros do presente como corretos A reconstrução histórica tenta analisar uma obra ou um conjunto delas à luz do próprio período em ue a obra foi produzida Não há ue se falar aui em diferenças ualitativas entre essas duas abordagens posto ue se destinam a objetivos diferentes Faço essa digressão para dizer ue na resenha abaixo faço uso de uma reconstrução racional ue se por um lado comete injustiças ao autor e à sua época tem a vantagem de ser pedagógica e aui preocupa me a auto pedagogia em particularÉ difícil escapar à conclusão de ue esse livro é racista E é fácil ver o poruê Seguindo a classificação proposta por Ibram X Kendi o pensamento racial pode assumir três formas uais sejam i segregacionista uando as disparidades socioeconômicas entre negros e brancos são atribuídas aos negros; ii assimilacionista uando essas disparidades são atribuídas tanto aos negros uanto ao racismo expresso diretamente através de discriminação ou como fruto de aspectos estruturais de sociedades construídas a partir da clivagem racial; iii anti racista uando apenas o último fator é levado em consideração Como racismo é a ideia de ue seres humanos podem ser divididos em grupos e seus comportamentos e outras características são definidas em larga medida pelo grupo racial a ue pertencem conclui se ue as duas primeiras ideologias são racistasAfirmei ue visão de Fernandes sobre a uestão racial no Brasil é essencialmente racista porue ela é assimilacionista Isso porue o principal argumento do livro é ue as desigualdades materiais ue caracterizam brancos e negros no Brasil foram produzidas em parte pela incapacidade do negro de incorporar valores éticos próprios da sociedade capitalista Sendo assim em função de sua experiência com a escravidão o negro desenvolveu uma sociopatia ue o tornavam de fato inferior ao imigrante europeu e aos brasileiros brancos Duvida? Leia as palavras do autorFaltava lhe ao negro coragem para enfrentar ocupações degradantes como os italianos ue engraxavam sapatos vendiam peixes e jornais etc; não era suficientemente “industrioso” para fomentar a poupança montando a sobre uma miríade de privações aparentemente indecorosas e para fazer dela um trampolim para o enriuecimento e o “sucesso”; carecia de meios para se lançar às peuenas ou às grandes especulações ue movimentavam os negócios comerciais bancários imobiliários e industriais; e principalmente não sentia o ferrete da ânsia de poder voltado para a acumulação da riuezao capítulo 1 e 2 do livro é basicamente só esse tipo de argumentoNo afã natural de fazer concessões no debate na expectativa de ue seu argumento ganhe ares de razoabilidade Florestan se prestou a dar roupagem nova a antigos preconceitos sem mudar seu conteúdo fundamental Ao fim e ao cabo executando se o terceiro capítulo do livro em ue o autor dedica se a refutar o mito da democracia racial o livro acaba servindo para perpetuar as antigas visões sobre a uestão racial brasileira Demonstrativo disso é o fato de ue Fernandes classifica como essencialmente verdadeira o seguinte relato de uma brasileira branca de família tradicionalEu acho ue os negros eram mais felizes no tempo da escravidão especialmente uando tinham senhores bons Tinham casa roupa comida remédio e o trabalho não era tanto assim Porue em geral os negros não têm cabeça para se dirigir sozinhos na vida Veja por aí como eles estãoA refutação da democracia racial a ue aludi anteriormente consiste em argumentar ue em uma democracia relações de heteronomia dominação de um grupo pelo outro não devem existir O ue viabiliza a persistência dessa forma de organização social é a precariedade material em ue se encontra o grupo dominado Ocorre ue para ue essa precariedade material seja superada é necessário ue o grupo prejudicado possa agir como grupo de interesse na arena democrática Mas o discurso da democracia racial ao negar a legitimidade da atuação democrática desse grupo de interesse contribui para perpetuar as desigualdades materiaisO argumento é perfeito e dele decorre ue no Brasil o movimento negro não é apenas necessário como plenamente legítimo Mas o ue é mais importante é notar ue essa refutação do mito da democracia racial não precisa do argumento desenvolvido na primeira parte do livro ue repito é essencialmente racistaEnfim recomendo a leitura do livro se você estiver interessado na história do pensamento racial brasileiro Se seu interesse é apenas entender racismo recomendo ler produções intelectuais mais recentes


  2. Marcos Henrique Amaral Marcos Henrique Amaral says:

    A partir das reflexões contidas nas obras “A integração do negro na sociedade de classes” e “Brancos e negros em São Paulo” podemos tentar sumarizar um problema central ue aparece como força motriz para a discussão em ambas as obras a saber ual é posição social do negro ― em relação ao branco ― no processo sócio histórico marcado pela transição de uma sociedade de castas para uma sociedade de classes? como se imbricam casta e classe na perpetuação do preconceito de cor? O marco desta transação seria uma abolição “mal aplicada” e cujos efeitos seriam a manutenção da posição degradante do negro agora no mundo dos brancos De acordo com a terminologia de Florestan Fernandes durante o regime escravista brancos e negros compunham dois mundos distintos e inconciliáveis A Abolição a despeito de uma aparente fusão entre ambos os mundos não se preocupa com um processo de reeducação readeuação das populações não brancas para o novo regime já marcado pelo capitalismo competitivo e pelo trabalho livreCom isto o autor passa a problematizar as implicações da cor raça sobre a estrutura de classes concluindo ue ainda há ― no período de escrita da obra ― uma uase euivalência em relação à estratificação econômica do regime escravista com brancos ocupando estratos superiores e não brancos negros e mestiços ocupando posições inferiores sem condições de competir no mercado de mão de obra livre recém formado e preenchido substancialmente por imigrantes europeus brancos Há ainda a reprodução das estratégias de separação entre brancos e negros gestos comportamentos vocábulos expressões ue externalizam a subsistência do preconceito de cor O termo “negro” permanece sendo algo injurioso ou ue ofenderia a pessoa a uem se aplicasse “coitado ele não tem culpa de ser negro”; “ele é negro mas tem alma de branco”; “é negro mas é melhor ue muito branco”; “é negro mas é melhor ue muito branco”; “sou negro mas não devo nada a ninguém”Nas palavras de Florestan Fernandes subsistia portanto uma desigualdade fundamental e irredutível ue facilitava e solicitava a preservação da antiga representação da personalidade status do negro elaborada pelos brancos e da autoconcepção de status e papeis desenvolvida anteriormente pelos negros e mestiços Em conseuência os ajustamentos ue tendiam a eliminar o negro e o mestiço das oportunidades econômicas das regalias políticas e das garantias sociais usufruídas pelos brancos se processava espontaneamente” BNSP p 146Este processo sócio histórico a “abolição mal aplicada” deixa traços indeléveis na própria estrutura psicossocial da população negra sentimento de “falta de preparo” “timidez” “medo” tendências à subserviência elucidada pela expressão “ficar no seu lugar” É em função desses efeitos psicossociais ue com a sua liberdade legal a população negra ― pensada coletivamente ― operava uma forma de revolução muda rejeitando ualuer trabalho ue pudesse significar uma nova degradação de sua condição humana “ projetadas para o interior da antiga plebe constituiriam seu estrato inferior; ao mesmo tempo sofriam restrições ue não afetavam com a mesma gravidade o ‘braço nacional’ branco e lutavam com inibições internas específicas As oportunidades de engajamento no trabalho agrícola ou urbano por piores ue fossem soavam para os brancos nacionais da plebe como uma liberação econômica e social; algo ue os lançava nas correntes das forças vivas e produtivas do país arrancando os da miséria social e moral anterior Tais perspectivas para o negro ou o mulato euivaliam ou a uma nova degradação ou a ficar praticamente como antes Ambas as conseuências espezinhavam sua sensibilidade e seu senso moral desmascarando por fim a verdadeira realidade estavam tão longe uanto no passado recente de serem livres por inteiro com segurança prestígio e dignidade” INSC p 65 A “nova” situação do negro de igual desprestígio em relação à antiga erige uma espécie de desilusão social entre a população negraDiante de tal diagnóstico a uestão ue Florestan busca responder é “o abolicionismo alimentava de fato ideais de emancipação das raças negras ou era um simples episódio da desagregação da ordem escravocrata senhorial e da emergência no seio dela da ordem social capitalista?” BNSP p 138 Naturalmente a análise do autor envereda pelo segundo caminho uma vez ue ― segundo ele ― não há alteração real na estratificação social paulistana A população não branca permanece na mesma situação de dependência econômica sem poder beneficiar se coletivamente com as novas oportunidades oferecidas pela renovação do sistema de trabalho e pela livre iniciativa No texto “Sociologia numa era de revolução social” ele retoma o tema da mudança social ressaltando as suas possibilidade de insucesso “A mudança social não é um bem em si mesma e ela pode produzir efeitos negativos irreparáveis se as opções coletivas em jogo não elevarem à esfera da consciência social o ue se pretende conseguir por seu intermédio” SERS p 219Para Florestan o preconceito de cor subsiste na sociedade de classes porém não mais com função de separação imediata entre dois mundos ― o dos brancos e o dos negros ― mas sim como um dificultador na concorrência econômica social e cultura concluindo enfim ue “é possível ue o preconceito de cor encontre na sociedade de classes condições estruturais favoráveis à sua perpetuação” BNSP p 153Nas palavras de Fernando Henriue Cardoso “ Florestan ressaltou ue na nova sociedade apesar de a cor deixar de ter a antiga significação classificatória imediata tanto o preconceito uanto a discriminação continuavam a existir Isso embora a contraposição automática de negro e escravo deixasse de ter euivalência numa sociedade na ual patrões empregados e operários não se distinguissem racialmente como no passado uando os senhores se distinguiam dos escravos e libertos pela cor Como não houve a integração imediata do negro liberto e de seus descendentes ao mercado de trabalho eles se mantiveram em posições sociais de franca inferioridade semelhantes às ocupadas anteriormente Assim as diferenças raciais continuaram a expressar inferioridade social mantendo se os preconceitos e as discriminações embora com as novas funções sociais de os afastar ou prejudicar na concorrência econômica social e cultural” O PROBLEMA DA INADEUAÇÃO DO EX ESCRAVO E DO IMIGRANTE EUROPEU COMO “AGENTE NATURAL” DO TRABALHO LIVRENa obra “A integração do negro na sociedade de classes” Florestan Fernandes lança uma de suas teses mais polêmicas referente à inadeuação dos negros e mestiços para o regime de trabalho livre como justificativa para a sua não absorção imediata no mercado de trabalho Como evidência empírica ele retoma a competição com o imigrante europeu ue distintamente no negro recém elevado à condição de cidadão não temia a degradação de determinadas ocupações ― ue como vimos teriam sido rejeitadas pelo negro numa forma de “revolução muda” Ademais entendia se ― talvez em função de um forte ideário eurocêntrico ue busca “europeizar” a cidade de São Paulo ― ue o imigrante seria o agente natural do trabalho livre Neste uadro de representações o negro era tomado em função de supostas irracionalidade irregularidade e inconstância para o trabalho; traços forjados no bojo do regime escravista e persistentes no novo regime Por outro lado o imigrante era representado como o agente humano já educado na Europa para lidar com trabalho livre sistemático e racional regido por termos exclusivamente mercantis Com isto Florestan Fernandes retoma a ambivalência formada por tradição e modernidade ue seriam personificadas respectivamente por negros e brancos a repulsa ao negro seria euivalente à negação dos resuícios do regime senhorial escravista; enuanto a absorção dos imigrantes brancos comporia juntamente àuela rejeição primeira face fundamental do processo de modernização brasileiroMais uma vez ele não se furta de criticar os moldes de nosso abolicionismo ue teria largado o negro “ao seu próprio destino deitando sobre seus ombros a responsabilidade de se reeducar e de se transformar para corresponder aos novos padrões e ideais de ser humano criados pelo advento do trabalho livre” INSC p 35 Ora inadeuado ao novo regime ele não se vê em condições de competitividade em relação à mão de obra imigrante esta supostamente melhor preparada de acordo com os novos padrões além de disposta a ocupar as posições mais degradantes desse mercado de trabalho agora rejeitadas pelo negro ue busca se afastar de seu passado de mera subalternidade A população negra e mestiça é então preterida; enuanto a população imigrante é absorvida como força motriz do novo regime Há como cenário fundamental nessa substituição para além da estrutura psicossocial do negro ― de inadeuação estrutural às novas formas de trabalho ― ou da aptidão uase natural do branco para o novo regime ― uma ideologia de embranuecimento o elemento branco surge como elemento civilizador em contraposição à incivilidade dos ex escravos Não obstante os poucos negros e mestiços ue “ensaiam uma ascensão social” na sociedade de classes os fazem pela proximidade com o mundo dos brancos são os “negros de alma branca” não se pode falar de “ascensão social” real Trata se muito mais de “infiltrações” “gotas negras ue passam lentamente pelo filtro nas mãos do branco” Em última instância os negros “bem sucedidos” no novo regime são aueles ue conseguem adeuar se ao padrão civilizatório do mundo dos brancos adotando comportamentos cultura e toda estirpe de hábitos ue aprendem em função de alguma proximidade com o elemento branco ― proximidade típica do negro da casa grande Embranuece se para integrar seCRÍTICASAntônio Sérgio Alfredo Guimarães autor do prefácio da obra não se furta a elencar a tese da inadeuação ou da auto exclusão como um dos pontos falhos da obra Aponta a partir de outras pesuisas sobre o mesmo tema ue não só tal inadeuação é insustentável sob viés empírico como também ela oculta a força das teorias racistas neste processo de exclusão do negro “Lilia Schwarcz enfatizou o modo como as teorias racistas do final do século XIX foram eficientes em tecer o senso comum cotidiano ue permitiram a substituição do negro e do mulato pelo imigrante europeu; George Andrews mostrou muitas evidências de como a preferência pelos imigrantes foi sistemática e não dependeu de habilidades ou de adeuadas personalidades status dos imigrantes Argumentou ademais ue o negro brasileiro no final do século XIX não estava despreparado para a liberdade Carlos Hasenbalg salientou ue o capitalismo industrial nem mesmo prescinde do racismo ue Florestan acreditava ter sido herdado da ordem escravocrata” Antônio Sérgio Alfredo Guimarães INSC pp 14 15UESTÕES UE SURGEM A PARTIR DA LEITURA DA OBRA1 Ora se é necessário reeducar os ex escravos ainda apegados à tradição do antigo regime por ue o mesmo não é válido para o “mundo dos brancos” ue foi igualmente forjado durante séculos no regime escravista? o branco e a cultura branca parecem naturalmente adaptados e adaptáveis2 E as relações de forças ue aí se estabelecem no sentido de afirmação da cultura branca e rejeição da cultura negra resumem se estritamente a caracteres econômicos de adeuação e inadeuação ao “novo regime”?3 Se a “rejeição do negro” no mercado do trabalho seria como ele postula a rejeição da tradição escravista não seria o caso de rejeitar vários outros elementos constitutivos da cultura branca inclusive os mandonismos dos senhores ue são convertidos na discussão de Florestan em um dos principais agentes de nossa revolução burguesa?4 Pode se de fato falar dos negros como população inapta à auto organização de ideário e aspirações difusas enuanto a população branca seria sua contrapartida em função da capacidade intelectual e prática para organizar se coletivamente? parece ir na contramão de outros autores ue postulam o isolamento e o privatismo da população por inteiro incluindo senhoresUAL SERIA A SOLUÇÃO PARA A INTEGRAÇÃO DO NEGRO? a transição precisava se operar como um processo histórico social o negro deveria antes ser assimilado à sociedade de classes para depois ajustar se às novas condições de trabalho e ao novo status econômico político ue aduiriria na sociedade brasileira Fernando Henriue CardosoA solução para o problema da não integração da população negra passa pela educação dos negros para ue estes se adeuem à nova realidade ao regime de trabalho livre O grande problema apontado pelo autor é precisamente a abolição mal aplicada ue deixa a população de cor abandonada a seu próprio destino sem ualuer preparação psicodinâmica para a ordem competitiva Cria se com isto uma cidadania incompleta ue somente seria superada a partir da educação dos ex escravos um processo lento de readeuação do agente do trabalho escravo para agente do trabalho livre Educação para criar um novo ethos ― o ethos “civilizado” ― entre os escravos Esse processo de auisição de uma cidadania plena corresponderia a uma segunda abolição ideia ue o aproxima das discussões de Joauim Nabuco a abolição “mal aplicada” ue limita se ao seu âmbito jurídico necessita do reforço prático de construção de um novo ethos via educação uestão educacional um dos vetores de modernização das relações sociais encontrar insumos para combater o universo mental ue hoje parece estar satisfeito com os limites de uma cidadania restrita e de uma democracia como estilo padrão cultural ue caso permaneça hegemônico irá perpetuar as desigualdades sociais as condições indignas de vida e a ignorância pública efeitos diretos da falta de oportunidades educacionais e do incremento da apropriação privada do conhecimento produzido socialmente Florestan Fernandes


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  1. Lucas Lucas says:

    Eu aprendi uma vez ue uando nos dispomos a analisar uma contribuição intelectual do passado há duas possibilidades de reconstrução A reconstrução racional faz uso consciente do anacronismos em outras palavras analisa se o passado tomando os parâmetros do presente como corretos A reconstrução histórica tenta analisar uma obra ou um conjunto delas à luz do próprio período em ue a obra foi produzida Não há ue se falar aui em diferenças ualitativas entre essas duas abordagens posto ue se destinam a objetivos diferentes Faço essa digressão para dizer ue na resenha abaixo faço uso de uma reconstrução racional ue se por um lado comete injustiças ao autor e à sua época tem a vantagem de ser pedagógica e aui preocupa me a auto pedagogia em particularÉ difícil escapar à conclusão de ue esse livro é racista E é fácil ver o poruê Seguindo a classificação proposta por Ibram X Kendi o pensamento racial pode assumir três formas uais sejam i segregacionista uando as disparidades socioeconômicas entre negros e brancos são atribuídas aos negros; ii assimilacionista uando essas disparidades são atribuídas tanto aos negros uanto ao racismo expresso diretamente através de discriminação ou como fruto de aspectos estruturais de sociedades construídas a partir da clivagem racial; iii anti racista uando apenas o último fator é levado em consideração Como racismo é a ideia de ue seres humanos podem ser divididos em grupos e seus comportamentos e outras características são definidas em larga medida pelo grupo racial a ue pertencem conclui se ue as duas primeiras ideologias são racistasAfirmei ue visão de Fernandes sobre a uestão racial no Brasil é essencialmente racista porue ela é assimilacionista Isso porue o principal argumento do livro é ue as desigualdades materiais ue caracterizam brancos e negros no Brasil foram produzidas em parte pela incapacidade do negro de incorporar valores éticos próprios da sociedade capitalista Sendo assim em função de sua experiência com a escravidão o negro desenvolveu uma sociopatia ue o tornavam de fato inferior ao imigrante europeu e aos brasileiros brancos Duvida? Leia as palavras do autorFaltava lhe ao negro coragem para enfrentar ocupações degradantes como os italianos ue engraxavam sapatos vendiam peixes e jornais etc; não era suficientemente “industrioso” para fomentar a poupança montando a sobre uma miríade de privações aparentemente indecorosas e para fazer dela um trampolim para o enriuecimento e o “sucesso”; carecia de meios para se lançar às peuenas ou às grandes especulações ue movimentavam os negócios comerciais bancários imobiliários e industriais; e principalmente não sentia o ferrete da ânsia de poder voltado para a acumulação da riuezao capítulo 1 e 2 do livro é basicamente só esse tipo de argumentoNo afã natural de fazer concessões no debate na expectativa de ue seu argumento ganhe ares de razoabilidade Florestan se prestou a dar roupagem nova a antigos preconceitos sem mudar seu conteúdo fundamental Ao fim e ao cabo executando se o terceiro capítulo do livro em ue o autor dedica se a refutar o mito da democracia racial o livro acaba servindo para perpetuar as antigas visões sobre a uestão racial brasileira Demonstrativo disso é o fato de ue Fernandes classifica como essencialmente verdadeira o seguinte relato de uma brasileira branca de família tradicionalEu acho ue os negros eram mais felizes no tempo da escravidão especialmente uando tinham senhores bons Tinham casa roupa comida remédio e o trabalho não era tanto assim Porue em geral os negros não têm cabeça para se dirigir sozinhos na vida Veja por aí como eles estãoA refutação da democracia racial a ue aludi anteriormente consiste em argumentar ue em uma democracia relações de heteronomia dominação de um grupo pelo outro não devem existir O ue viabiliza a persistência dessa forma de organização social é a precariedade material em ue se encontra o grupo dominado Ocorre ue para ue essa precariedade material seja superada é necessário ue o grupo prejudicado possa agir como grupo de interesse na arena democrática Mas o discurso da democracia racial ao negar a legitimidade da atuação democrática desse grupo de interesse contribui para perpetuar as desigualdades materiaisO argumento é perfeito e dele decorre ue no Brasil o movimento negro não é apenas necessário como plenamente legítimo Mas o ue é mais importante é notar ue essa refutação do mito da democracia racial não precisa do argumento desenvolvido na primeira parte do livro ue repito é essencialmente racistaEnfim recomendo a leitura do livro se você estiver interessado na história do pensamento racial brasileiro Se seu interesse é apenas entender racismo recomendo ler produções intelectuais mais recentes

  2. Marcos Henrique Amaral Marcos Henrique Amaral says:

    A partir das reflexões contidas nas obras “A integração do negro na sociedade de classes” e “Brancos e negros em São Paulo” podemos tentar sumarizar um problema central ue aparece como força motriz para a discussão em ambas as obras a saber ual é posição social do negro ― em relação ao branco ― no processo sócio histórico marcado pela transição de uma sociedade de castas para uma sociedade de classes? como se imbricam casta e classe na perpetuação do preconceito de cor? O marco desta transação seria uma abolição “mal aplicada” e cujos efeitos seriam a manutenção da posição degradante do negro agora no mundo dos brancos De acordo com a terminologia de Florestan Fernandes durante o regime escravista brancos e negros compunham dois mundos distintos e inconciliáveis A Abolição a despeito de uma aparente fusão entre ambos os mundos não se preocupa com um processo de reeducação readeuação das populações não brancas para o novo regime já marcado pelo capitalismo competitivo e pelo trabalho livreCom isto o autor passa a problematizar as implicações da cor raça sobre a estrutura de classes concluindo ue ainda há ― no período de escrita da obra ― uma uase euivalência em relação à estratificação econômica do regime escravista com brancos ocupando estratos superiores e não brancos negros e mestiços ocupando posições inferiores sem condições de competir no mercado de mão de obra livre recém formado e preenchido substancialmente por imigrantes europeus brancos Há ainda a reprodução das estratégias de separação entre brancos e negros gestos comportamentos vocábulos expressões ue externalizam a subsistência do preconceito de cor O termo “negro” permanece sendo algo injurioso ou ue ofenderia a pessoa a uem se aplicasse “coitado ele não tem culpa de ser negro”; “ele é negro mas tem alma de branco”; “é negro mas é melhor ue muito branco”; “é negro mas é melhor ue muito branco”; “sou negro mas não devo nada a ninguém”Nas palavras de Florestan Fernandes subsistia portanto uma desigualdade fundamental e irredutível ue facilitava e solicitava a preservação da antiga representação da personalidade status do negro elaborada pelos brancos e da autoconcepção de status e papeis desenvolvida anteriormente pelos negros e mestiços Em conseuência os ajustamentos ue tendiam a eliminar o negro e o mestiço das oportunidades econômicas das regalias políticas e das garantias sociais usufruídas pelos brancos se processava espontaneamente” BNSP p 146Este processo sócio histórico a “abolição mal aplicada” deixa traços indeléveis na própria estrutura psicossocial da população negra sentimento de “falta de preparo” “timidez” “medo” tendências à subserviência elucidada pela expressão “ficar no seu lugar” É em função desses efeitos psicossociais ue com a sua liberdade legal a população negra ― pensada coletivamente ― operava uma forma de revolução muda rejeitando ualuer trabalho ue pudesse significar uma nova degradação de sua condição humana “ projetadas para o interior da antiga plebe constituiriam seu estrato inferior; ao mesmo tempo sofriam restrições ue não afetavam com a mesma gravidade o ‘braço nacional’ branco e lutavam com inibições internas específicas As oportunidades de engajamento no trabalho agrícola ou urbano por piores ue fossem soavam para os brancos nacionais da plebe como uma liberação econômica e social; algo ue os lançava nas correntes das forças vivas e produtivas do país arrancando os da miséria social e moral anterior Tais perspectivas para o negro ou o mulato euivaliam ou a uma nova degradação ou a ficar praticamente como antes Ambas as conseuências espezinhavam sua sensibilidade e seu senso moral desmascarando por fim a verdadeira realidade estavam tão longe uanto no passado recente de serem livres por inteiro com segurança prestígio e dignidade” INSC p 65 A “nova” situação do negro de igual desprestígio em relação à antiga erige uma espécie de desilusão social entre a população negraDiante de tal diagnóstico a uestão ue Florestan busca responder é “o abolicionismo alimentava de fato ideais de emancipação das raças negras ou era um simples episódio da desagregação da ordem escravocrata senhorial e da emergência no seio dela da ordem social capitalista?” BNSP p 138 Naturalmente a análise do autor envereda pelo segundo caminho uma vez ue ― segundo ele ― não há alteração real na estratificação social paulistana A população não branca permanece na mesma situação de dependência econômica sem poder beneficiar se coletivamente com as novas oportunidades oferecidas pela renovação do sistema de trabalho e pela livre iniciativa No texto “Sociologia numa era de revolução social” ele retoma o tema da mudança social ressaltando as suas possibilidade de insucesso “A mudança social não é um bem em si mesma e ela pode produzir efeitos negativos irreparáveis se as opções coletivas em jogo não elevarem à esfera da consciência social o ue se pretende conseguir por seu intermédio” SERS p 219Para Florestan o preconceito de cor subsiste na sociedade de classes porém não mais com função de separação imediata entre dois mundos ― o dos brancos e o dos negros ― mas sim como um dificultador na concorrência econômica social e cultura concluindo enfim ue “é possível ue o preconceito de cor encontre na sociedade de classes condições estruturais favoráveis à sua perpetuação” BNSP p 153Nas palavras de Fernando Henriue Cardoso “ Florestan ressaltou ue na nova sociedade apesar de a cor deixar de ter a antiga significação classificatória imediata tanto o preconceito uanto a discriminação continuavam a existir Isso embora a contraposição automática de negro e escravo deixasse de ter euivalência numa sociedade na ual patrões empregados e operários não se distinguissem racialmente como no passado uando os senhores se distinguiam dos escravos e libertos pela cor Como não houve a integração imediata do negro liberto e de seus descendentes ao mercado de trabalho eles se mantiveram em posições sociais de franca inferioridade semelhantes às ocupadas anteriormente Assim as diferenças raciais continuaram a expressar inferioridade social mantendo se os preconceitos e as discriminações embora com as novas funções sociais de os afastar ou prejudicar na concorrência econômica social e cultural” O PROBLEMA DA INADEUAÇÃO DO EX ESCRAVO E DO IMIGRANTE EUROPEU COMO “AGENTE NATURAL” DO TRABALHO LIVRENa obra “A integração do negro na sociedade de classes” Florestan Fernandes lança uma de suas teses mais polêmicas referente à inadeuação dos negros e mestiços para o regime de trabalho livre como justificativa para a sua não absorção imediata no mercado de trabalho Como evidência empírica ele retoma a competição com o imigrante europeu ue distintamente no negro recém elevado à condição de cidadão não temia a degradação de determinadas ocupações ― ue como vimos teriam sido rejeitadas pelo negro numa forma de “revolução muda” Ademais entendia se ― talvez em função de um forte ideário eurocêntrico ue busca “europeizar” a cidade de São Paulo ― ue o imigrante seria o agente natural do trabalho livre Neste uadro de representações o negro era tomado em função de supostas irracionalidade irregularidade e inconstância para o trabalho; traços forjados no bojo do regime escravista e persistentes no novo regime Por outro lado o imigrante era representado como o agente humano já educado na Europa para lidar com trabalho livre sistemático e racional regido por termos exclusivamente mercantis Com isto Florestan Fernandes retoma a ambivalência formada por tradição e modernidade ue seriam personificadas respectivamente por negros e brancos a repulsa ao negro seria euivalente à negação dos resuícios do regime senhorial escravista; enuanto a absorção dos imigrantes brancos comporia juntamente àuela rejeição primeira face fundamental do processo de modernização brasileiroMais uma vez ele não se furta de criticar os moldes de nosso abolicionismo ue teria largado o negro “ao seu próprio destino deitando sobre seus ombros a responsabilidade de se reeducar e de se transformar para corresponder aos novos padrões e ideais de ser humano criados pelo advento do trabalho livre” INSC p 35 Ora inadeuado ao novo regime ele não se vê em condições de competitividade em relação à mão de obra imigrante esta supostamente melhor preparada de acordo com os novos padrões além de disposta a ocupar as posições mais degradantes desse mercado de trabalho agora rejeitadas pelo negro ue busca se afastar de seu passado de mera subalternidade A população negra e mestiça é então preterida; enuanto a população imigrante é absorvida como força motriz do novo regime Há como cenário fundamental nessa substituição para além da estrutura psicossocial do negro ― de inadeuação estrutural às novas formas de trabalho ― ou da aptidão uase natural do branco para o novo regime ― uma ideologia de embranuecimento o elemento branco surge como elemento civilizador em contraposição à incivilidade dos ex escravos Não obstante os poucos negros e mestiços ue “ensaiam uma ascensão social” na sociedade de classes os fazem pela proximidade com o mundo dos brancos são os “negros de alma branca” não se pode falar de “ascensão social” real Trata se muito mais de “infiltrações” “gotas negras ue passam lentamente pelo filtro nas mãos do branco” Em última instância os negros “bem sucedidos” no novo regime são aueles ue conseguem adeuar se ao padrão civilizatório do mundo dos brancos adotando comportamentos cultura e toda estirpe de hábitos ue aprendem em função de alguma proximidade com o elemento branco ― proximidade típica do negro da casa grande Embranuece se para integrar seCRÍTICASAntônio Sérgio Alfredo Guimarães autor do prefácio da obra não se furta a elencar a tese da inadeuação ou da auto exclusão como um dos pontos falhos da obra Aponta a partir de outras pesuisas sobre o mesmo tema ue não só tal inadeuação é insustentável sob viés empírico como também ela oculta a força das teorias racistas neste processo de exclusão do negro “Lilia Schwarcz enfatizou o modo como as teorias racistas do final do século XIX foram eficientes em tecer o senso comum cotidiano ue permitiram a substituição do negro e do mulato pelo imigrante europeu; George Andrews mostrou muitas evidências de como a preferência pelos imigrantes foi sistemática e não dependeu de habilidades ou de adeuadas personalidades status dos imigrantes Argumentou ademais ue o negro brasileiro no final do século XIX não estava despreparado para a liberdade Carlos Hasenbalg salientou ue o capitalismo industrial nem mesmo prescinde do racismo ue Florestan acreditava ter sido herdado da ordem escravocrata” Antônio Sérgio Alfredo Guimarães INSC pp 14 15UESTÕES UE SURGEM A PARTIR DA LEITURA DA OBRA1 Ora se é necessário reeducar os ex escravos ainda apegados à tradição do antigo regime por ue o mesmo não é válido para o “mundo dos brancos” ue foi igualmente forjado durante séculos no regime escravista? o branco e a cultura branca parecem naturalmente adaptados e adaptáveis2 E as relações de forças ue aí se estabelecem no sentido de afirmação da cultura branca e rejeição da cultura negra resumem se estritamente a caracteres econômicos de adeuação e inadeuação ao “novo regime”?3 Se a “rejeição do negro” no mercado do trabalho seria como ele postula a rejeição da tradição escravista não seria o caso de rejeitar vários outros elementos constitutivos da cultura branca inclusive os mandonismos dos senhores ue são convertidos na discussão de Florestan em um dos principais agentes de nossa revolução burguesa?4 Pode se de fato falar dos negros como população inapta à auto organização de ideário e aspirações difusas enuanto a população branca seria sua contrapartida em função da capacidade intelectual e prática para organizar se coletivamente? parece ir na contramão de outros autores ue postulam o isolamento e o privatismo da população por inteiro incluindo senhoresUAL SERIA A SOLUÇÃO PARA A INTEGRAÇÃO DO NEGRO? a transição precisava se operar como um processo histórico social o negro deveria antes ser assimilado à sociedade de classes para depois ajustar se às novas condições de trabalho e ao novo status econômico político ue aduiriria na sociedade brasileira Fernando Henriue CardosoA solução para o problema da não integração da população negra passa pela educação dos negros para ue estes se adeuem à nova realidade ao regime de trabalho livre O grande problema apontado pelo autor é precisamente a abolição mal aplicada ue deixa a população de cor abandonada a seu próprio destino sem ualuer preparação psicodinâmica para a ordem competitiva Cria se com isto uma cidadania incompleta ue somente seria superada a partir da educação dos ex escravos um processo lento de readeuação do agente do trabalho escravo para agente do trabalho livre Educação para criar um novo ethos ― o ethos “civilizado” ― entre os escravos Esse processo de auisição de uma cidadania plena corresponderia a uma segunda abolição ideia ue o aproxima das discussões de Joauim Nabuco a abolição “mal aplicada” ue limita se ao seu âmbito jurídico necessita do reforço prático de construção de um novo ethos via educação uestão educacional um dos vetores de modernização das relações sociais encontrar insumos para combater o universo mental ue hoje parece estar satisfeito com os limites de uma cidadania restrita e de uma democracia como estilo padrão cultural ue caso permaneça hegemônico irá perpetuar as desigualdades sociais as condições indignas de vida e a ignorância pública efeitos diretos da falta de oportunidades educacionais e do incremento da apropriação privada do conhecimento produzido socialmente Florestan Fernandes

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